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SPFW, verão 2012 / 2013: Ronaldo Fraga, pura poesia!

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A forma como o estilista Ronaldo Fraga utiliza aquilo que o inspira para a concepção de suas coleções nunca é óbvia, assim como acontece com outros grandes designers do mundo da moda, mas no caso específico de Ronaldo Fraga um ponto é sempre perceptível: a presença humana em seu trabalho.

Nesta coleção de verão 2012/13 essa presença do homem é ainda mais perceptível. A partir das viagens do designer ao norte do país, especificamente ao estado do Pará, Fraga conseguiu captar muito da alma das pessoas e da cultura local e isso se percebe a começar pela trilha sonora do desfile, recheada de ritmos tipicamente paraenses, do popular ao erudito, como as guitarradas, o brega e as óperas do maestro Waldemar Henrique. Impossível também não falar sobre a estamparia com imagens de aves e flores regionais, bem como das bijous feitas com frutos e sementes da Amazônia.

Essas bijous, também chamadas de biojóias, foram confeccionadas por artesãs do município de Tucumã, uma verdadeira aula de sustentabilidade a partir do uso de sementes e outros elementos típicos da floresta para conceber peças de design único e que tem muito a mostrar sobre toda a riqueza que transforma “pepitas de ouro em sementes da mata“, como diz o texto do release desta coleção.

SPFW, verão 2012/13: Alexandre Herchcovitch, Boy George e anos 80 na passarela

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Logo no primeiro dia de SPFW inverno 2012/13, Alexandre Herchcovitch apresentou uma coleção com cara de anos 80, cheia de cores e padronagens reverenciando um dos ídolos do estilista, o cantor britânico Boy George que serviu de inspiração para esta coleção.

  

A inspiração neste caso, como é de se esperar dos trabalhos de Herchcovitch, não é óbvia. Ela aparece em referências aos anos 80 através das proporções, das cores (muitos tons flúor), das ombreiras, dos quadriculados e dos chapéus criados pelo britânico Stephen Jones.

  

Herchcovitch nos mostrou, mais uma vez, por meio desta coleção, que fazer moda requer boa dose de paixão por aquilo que se faz, além de muito bom senso quando se pensa em homenagear uma personalidade através de um trabalho de estilismo, sem exageros e sem ser literal naquilo a que se propõe. Genial!

Fotos: Reprodução

Alexandre Herchcovitch, coleção masculina de inverno/2012

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O desfile da coleção masculina de inverno 2012 de Alexandre Hechcovitch apresentada na última terça-feira, último dia de SPFW, foi mais um daqueles momentos úncos proporcionados pelo estilista que nos convida a cada coleção a pensar sobre moda e os rumos da mesma na contemporaneidade.

As influências judaicas, provenientes dos 12 anos em que Alexandre estudou em um colégio ortodoxo onde tinha aulas de hebraico com rabinos e estudava em classes somente para meninos, parecem ter sido marcantes nesta coleção. Mesmo não seguindo a tradição ortodoxa, Herchcovitch tem muita proximidade com a cultura judaica e para ele esse é um tema que ia mesmo surgir em algum momento em seu trabalho. O que tudo mostra, é que tal momento chegou e veio sabiamente carregado de referências, embora concebido com certo distanciamento, que resultou em uma das imagens mais fortes da temporada.

Herchcovitch desconstruiu a roupa super restrita dos ortodoxos e incorporou elementos da religião judaica e adereços de reza à sua alfaiataria. Esses elementos estiveram bem presentes em detalhes tais como:

  • As listras e os tons da coleção remetem ao Talit, o xale que os homens usam para rezar.
  • As mangas e luvas listradas de preto vêm do Tefilin, amuleto de couro que é amarrado no braço e na mão diariamente na hora da reza. Desde o barmitzvah os meninos passam a usar.
  • Os cintos são uma referência ao Gartel, faixa que se usa por cima dos casacões de inverno.
  • Alguns looks ainda levam o Shtraimel, tradicional chapéu de pele que faz parte do costume ortodoxo.
  • A série de looks brancos remete ao Na Nach, uma ramificação do judaísmo ortodoxo que não se vê muito no Brasil.

Igualmente às coleções masculina de inverno/2010 com suas referências ao medo, morte e sedução e a de inverno/2011 que remetia a um mundo futurista e apocalíptico, as quais, à primeira vista, pareciam ser altamente conceituais,  a de inverno/2012 também engana mas acaba revelando, através de um olhar mais apurado, ser comercial. É que por trás das sopreposições e das referências às vestes tradicionais judaicas, podemos encontrar bermudas, paletós, casacos e calças com a essência das criações de Herchcovitch e com a modelagem que define os próximos padrões da roupa masculina contemporânea.

Fotos: Reprodução

Nota

Tenho uma admiração enorme por Ronaldo Fraga, e muito disso se deve por sua postura como designer, se colocando à frente do seu tempo, olhando para o passado com genialidade e sempre conseguindo nos fascinar com sua genialidade. Ele que até há bem pouco tempo era tachado por “críticos” como sendo o criador de uma moda teatral, hoje, com os rumos definidos de um caminho absolutamente novo que o mundo da moda vai ter que percorrer, é considerado, cada vez mais, um exemplo de sabedoria, força e identidade.

Ronaldo não se coloca em disputas de egos, algo muito típico do mundo fashion, e não compartilha com a idéia de um progresso conseguido a qualquer custo. Ao contrário, é adepto da construção social. Ele pratica o desafio, levando sua moda às últimas conseqüências, contando belas histórias de outros, e escrevendo a própria história rompendo os limites do possível, olhando as coisas que ainda ninguém viu (ou se nega a ver).

Ainda nos anos 90, quando apresentou sua primeira coleção no Brasil, chamada “Eu amo coração de galinha”, no Phytoervas Fashion, Fraga disse que fazia “funny wear e já se servia de técnicas de alfaiataria para “refletir essa identidade de quem somos nós enquanto brasileiros”, instigando a individualidade no vestir ludicamente, algo tão caro às suas coleções e justamente a característica que as tornam tão especiais e únicas. Exemplos disso em suas criações são vários e cito aqui dois deles: os looks inspirados na poesia de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa e a interpretação que o designer deu à arte geométrica de Athos Bulcão apresentada em sua coleção de inverno/2011 na SPFW.

Sua decisão em não fazer parte do line up da próxima edição do São Paulo Fashion Week, a ser realizado entre os dias 19 e 24 de janeiro de 2012, o evento mais importante da moda brasileira na atualidade pegou a todos de surpresa, deixando a muitos dos amantes da arte criada por Fraga meio cabisbaixos. Como de praxe, Ronaldo Fraga sempre escreve os releases das suas coleções. Texto sempre carregado de sentimento e, como não podia deixar de ser, com o texto desta terça-feira (13.12) não foi diferente.

O mestre das agulhas e linhas destacou em seu título a indagação: “A moda acabou?”. Ele mesmo responde a tal pergunta: “A moda acabou pelo menos da forma como a conhecíamos. O desenho de um novo tempo nos pede novas funções para roupas, corpos, móveis e imóveis”. Assim o genial criador se despede da próxima edição do SPFW, nos deixando cheios de esperança que esse afastamento seja apenas momentaneamente.

Quem já teve o privilégio de assistir a um desfile dele, sabe o quanto Ronaldo fará falta, porque todas as vezes que saímos da sala de desfiles ficamos surpresos e com a sensação de que amar o mundo da moda vale a pena, pois nem tudo é igual em termos de criação e estilo.

Fotos: Reprodução

A moda acabou?

Moda, sexo e fetiche: relações recorrentes no universo fashion

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Após ver e ler acerca de alguns desfiles desta edição de verão/2012 do SPFW, fiquei muito motivado a postar sobre a relação entre moda, sexo e fetiche, uma vez que ela esteve presente nas passarelas da semana de moda paulista e é sempre recorrente no universo fashion, bem como na publicidade de moda, onde os exemplos que podem ser citados são diversos. Pois bem, coincidentemente, encontrei um post que o editor de moda Luigi Torre, do About Fashion, escreveu recentemente para a revista Catarina, na verdade um breve ensaio sobre as relações entre moda e fetiche. O texto, maravilhoso de se ler (leia-o aqui) serviu de base para este post no qual procurei focar minha análise sobre os desfiles das coleções de verão/2012 de Samuel Cirnansck e de Reinaldo Lourenço apresentados no SPFW.

A moda, assim como toda forma de expressão cultural, cria significados, constrói sentidos, posições de sujeitos, identidades individuais e de grupo, segundo Luigi Torre. Desta forma, ela pode ser entendia como reflexo da sociedade em um determinado momento histórico, refletindo o lado material da personalidade, bem como o da fantasia. Este último funciona como um meio através do qual são expressadas todas as forma de desejos e sonhos, dos lúdicos aos sexuais e nestes se insere a moda em suas relações com o fetiche.

Na época atual, quase todos os tabus em relação ao sexo foram extintos (quase todos!). Pelo menos em relação a moda feminina a sensualidade presente nos looks é bem tolerada. É, de certa forma, permitida que se explore o corpo da mulher através da moda e assim, pernas à mostra, decotes generosos, transparências etc, não são mais condenados como em outros períodos. No que diz respeito à moda masculina, bem como às campanhas publicitárias e o mercado editorial voltado a tal público, cito a Made in Brazil, como aquela que, de certa forma, transgride os antigos limites que dizem que a moda masculina (e consequentemente os ensaios e editoriais de moda masculinos etc) devem primar pela discrição, pela contenção de excessos na exploração do corpo e da sensualidade.

Ainda de acordo com Luigi Torre, nessa pegada fashion fetichista, corsets, vestidos ultra-justos, cintas-ligas, correntes, couro e vinil há tempos deixaram de fazer parte somente do universo sado-masoquista, integrando hoje o universo de idéias e tendências da moda global como ferramentas que traduzem poder, sedução e sensualidade. Enfim, cobrir e descobrir partes do corpo feminino são atitudes a que os estilistas lançam mão dependendo de qual parte daquele corpo é “eleito” como região erótica ou erotizada, tanto pela moda, quanto pela própria publicidade que também influencia e é influenciada por tais questões.

Mas, por que essa abordagem entre moda e fetiche? Isso é algo novo? Não caros leitores, isso não é nada novo e nem algo de inédito na moda. O que me fez enveredar por tal abordagem foi ver como os estilistas se apropriam de tal relação para compor aquilo que eles nos apresentam em suas coleções. Esta edição do SPFW, por exemplo, está sendo bem representativa do assunto tratado neste post. Ou seja, o universo fetichista é sim inspirador para moda e o tratamento que é dado para tal temática costuma variar bastante.

Enquanto alguns designers são mais incisivos em suas abordagens, outros costumam (ou pelo menos procuram ser) mais leves. As coleções de verão/2012 de Samuel Cirnansck e de Reinaldo Lourenço, por exemplo, ilustram bem isso. Cirnansck, a exemplo do que fez Marc Jacobs para a coleção de inverno/2011 da Louis Vuitton em Paris, apresentou um desfile com muitas referências sexuais e sadomasoquistas, bem representadas pelas mordaças, as cordas e as tiras de couro que amarravam a cintura e os braços das modelos, compondo os detalhes do styling do desfile. Reinaldo Lourenço, por sua vez, procurou redesenhar a silhueta feminina, através de uma pegada sexy fetichista ligth. A valorização dos seios, ombros e costas foram o forte desta coleção do estilista e mesmo os longos para a noite tiveram a sua dose de fetiche.

Para o editor de moda Ricardo Oliveros, em entrevista postada em seu blog, o Fora de Moda, “o fetiche está ligado a alguma forma de poder e extremamente conectado a algum objeto e a ao sentido de proibido”, assim é vista pelo mesmo a relação fetiche x moda.  Não à toa que sem perder seu teor de sensualidade e erotismo, o fetiche e, consequentemente, o sexo na moda, foi aos poucos deixando de ser visto como um tabu, como subversão, passando a ficar fortemente ligado às noções de poder, elegância e sofisticação. O que varia é a forma como tal temática é abordada e em se tratando de um assunto que ainda hoje sempre rende polêmica, todo cuidado é pouco na forma como se pretende levar tal temática ao público.

Modelos amordaçadas na passarela de Samuel Cirnansck

Reinaldo Lourenço focou sua pegada fetichista elencando os seios e os ombros femininos em uma abordagem mais leve do tema

Fotos: Reprodução

Melissa Ultra Girl + Gareth Pugh

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A Melissa continua as suas parcerias de sucesso unindo a marca ao nome de designers hypados do mundo fashion. Desta vez é com Gareth Pugh, nome conhecido e muito querido entre a nova geração de estilistas que primam pelo estilo conceitual. Com seus 29 anos, o estilista é hoje considerado um dos nomes mais promissores de sua geração. Disputadíssimo por marcas e revistas de moda, teve seu nome citado por Hilary Alexander do Daily Telegraph que escreveu: “Parece que todos querem um pedaço de Pugh“.

E se todos querem mesmo o seu pedacinho a Melissa garantiu o seu a atrvés do lançamento da edição especial Melissa Ultragirl com estampas exclusivas assinadas por Gareth, estampas inspiradas nos looks da primeira coleção do estilista apresentada em Paris no ano de 2009.

O modelo Melissa Ultragirl já teve um lançamento durante o Fashion Rio e será mostrado também no SPFW.

Fotos: Reprodução

Franjas pra que as quero???

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De couro ou de pêlos, as franjas nas it-bolsas de mão da Ellus e de Fause Haten e nos sapatos de Alexandre Herchcovitch: itens de desejo imediato!

 Terminadas as temporadas de moda inverno/2011 aqui no Brasil sempre chega o momento de se avaliar a idéias apresentadas nas passarelas e apontar aquilo que pode ser tendência. Para quem acompanha o The Fashion View, sabe que eu não sou crítico de moda e tampouco tenho a pretensão de o ser. Contudo, como este é um blog focado em moda, fica impossível não entrar no tema das tendências, apresentá-las e discutí-las. Vamos lá!

Uma que certamente merece ser falada é o das franjas, bastante vistas nas coleções de inverno/2011 desfiladas no Fashion Rio e no SPFW, elas foram vistas de maneira bem diversa: feitas com penduricalhos, de materiais nobres e também nos acessórios. Mas se as franjas são tendência, isso não vem de agora, pois coleções internacionais desfiladas recentes, como a da Gucci, já adiantaram a proposta.

Se nas roupas a idéia do uso das franjas, principalmente aquelas feitas com plumas, correntes e canutilhos, consegue resultar em um look cheio de glamour, nos acessórios as possibilidades se diversificam ainda mais. Além dos materiais já citados, o couro e o pêlo também aparece usado em sapatos e bolsas como fizeram Alexandre Herchcovitch, a Ellus e Fause Haten que mostraram peças incríveis transformadas, quase que de imediato, em itens de desejo. Por essas e outras é que se pode dizer que eis aí uma forte tendência para a próxima estação.

Foto: Reprodução